quinta-feira, 19 de julho de 2007

aluno de psicologia x psicóloga

e-mail repassado:

Psicóloga X Cazuza

Repassando e concordando com os comentários.
Herói é quem trabalha 18 horas por dia e paga de impostos 6 meses de seu salário para sustentar o país (e todas suas mazelas!!!), e conta com os outros 6 meses para sustentar sua família. Concordo com a psicóloga. Uma psicóloga que escreveu algumas verdades.
Uma psicóloga que assistiu o filme Cazuza escreveu o seguinte texto:

"Fui ver o filme Cazuza há alguns dias e me deparei com uma coisa estarrecedora. As pessoas estão cultivando ídolos errados. Como podemos cultivar um ídolo como Cazuza?Concordo que suas letras são muito tocantes, mas reverenciar um marginal como ele, é, no mínimo,inadmissível.> Marginal, sim, pois Cazuza foi uma pessoa que viveu à margem da sociedade, pelo menos uma sociedade que tentamos costruir (ao menos eu) com conceitos de certo e errado. No filme, vi um rapaz>mimado, filhinho de papai que nunca precisou trabalhar para conseguir nada, já tinha tudo nas mãos. A mãe vivia para satisfazer as suas vontades e loucuras. O pai referiu se afastar das suas responsabilidades e deixou a vida correr solta.

São esses pais que devemos ter como exemplo? Cazuza só começou a gravar pois o pai era diretor de uma grande gravadora. Temos vários talentos que não são revelados por falta de oportunidade ou por não terem algum conhecido importante.

Cazuza era um traficante, como sua mãe revela no livro, admitiu que ele trouxe drogas da Inglaterra, um verdadeiro criminoso. Concordo com o juiz Siro Darlan quando ele diz que a única diferença entre Cazuza e Fernandinho Beira-Mar é que um nasceu na zona sul e outro não.

Fiquei horrorizada com o culto que fizeram a esse rapaz, principalmente por minha filha adolescente ter visto o filme. Precisei conversar muito para que ela não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais, beber até cair e outras coisas fossem certas, já que foi isso que o filme mostrou.

Por que não são feitos filmes de pessoas realmente importantes que tenham algo de bom para essa juventude já tão transviada? Será que ser correto não dá Ibope, não rende bilheteria?

Como no comercial da Fiat, precisamos rever nossos conceitos, só assim teremos um mundo melhor. Devo lembrar aos pais que a morte de Cazuza foi consequência da educação errônea a que foi submetido. Será que Cazuza teria morrido do mesmo jeito se tivesse tido pais que dissesem NÃO quando necessário? Lembrem-se, dizer NÃO é a prova mais difícil de amor. Não deixem seus filhos à revelia para que não precisem se arrepender mais tarde. A principal função dos pais é educar. Não se preocupem em ser amigo de seus filhos. Eduque-os e mais
tarde eles verão que você foi a pessoa que mais os amou e foi, é, e sempre será, o seu melhor amigo, pois amigo não diz SIM sempre."
Karla
Christine
Psicóloga Clínica

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a resposta: Aluno de psicologia x psicóloga

Se formos usar o filme como argumento, lembrando que biografias são alteradas então começo falando da seguinte parte do e-mail:

"Cazuza só começou a gravar pois o pai era diretor de uma grande gravadora."

Se a senhora assistiu mesmo ao filme, terá visto que o pai de cazuza, presidente da Som Livre não queria gravar um álbum do filho. Só depois de ver Caetano cantando uma letra dele com Frejat, chamada "todo o amor que houver nessa vida".

Cazuza traficante?!

Que contraditório não?! se ele fosse traficante não viveria como "filhinho de papai". Nunca ouvi falar da vida de tráfico de Cazuza. Isso pode ser ignorância de minha parte, mesmo que o fosse, compará-lo com Fernandinho Beira Mar seria algo disforme da realidade. Pelo menos eu já li a respeito de torturas que o Fernandinho Beira Mar fez. Agora o Cazuza, nunca ouvi falar dele fazendo torturas com ninguém.

Se a senhora precisou muito conversar com a sua filha para que ela não entrasse na vida das drogas, quer dizer que não a "modelou" direito, não ensinou a ela a ser uma cópia da senhora (já que estamos falando entre pessoas da área, posso dizer "modelar" não é?!) Assim como o pai de cazuza não o modelou para trabalhar.

Se sua filha for feia, a senhora não precisa convencê-la de não ir para bacanais... como se fosse ruim um bacanal, tem até o deus grego, Baco. Deus do vinho de bacanal, mas vinho tenho certeza que a senhora gosta. Lembrando que Aristóteles, o pai da psicologia e precursor de todas as áreas de humanas e saúde dormia com os seus alunos preferidos. E o homossexualismo era algo natural na Grécia.

"Beber até cair" é algo que todas as pessoas da nossa cultura brasileira já passaram, ou pelo menos sua maioria, é melhor passar por isso na fase certa, do que proibir a menina de beber, e ela virar uma alcoolista, e aos 30 anos querendo saciar os desejos pendentes, pois existem as fases certas para cada realização, pode ser visto isso na teoria psicossocial de Erik Erikson, interacionista.

Como aqueles gatões de meia-idade que não fizeram as orgias na época certa e agora tão ai "tiozões" se achando com 20 anos.

"Devo lembrar aos pais que a morte de Cazuza foi consequência da educação errônea a que foi submetido." Nossa, então acha que colocar a culpa nos pais ajuda?! Então quando um adolescente em crise vai ao consultório da senhora, é só colocar as culpas nos pais que tudo ficará bem?! A vida é um pouco mais complexa que isso, cada caso é um caso e analisar uma pessoa por um filme não é lá tão preciso assim.

Até porque a droga em si não tem problema. O problema é o modo como encaramos aquilo, não será o fato de algo ser legalizado ou não que definirá o certo e o errado na vida de uma pessoa, eu moro em Brasília e vejo muitas pessoas abusarem do dinheiro que tem em cargos públicos, justamente dos impostos que eu e a senhora pagamos. O que é importante é o modo como a pessoa encara a droga, assim como o álcool, que é algo legalizado. Se a pessoa beber 3 latas de cerveja todo dia, há um problema, mas acredito que se a pessoa fumar um cigarro de maconha a cada seis meses, não vejo problema. Lembrando que o psicólogo deve ver o modo como o cliente/pessoa encara a vida, sem usar os seus próprios valores para julgar o outro.

A senhora inicia esse e-mail muito bem, dizendo que ficamos meses trabalhando para pagar somente impostos, mas depois disso o e-mail afunda como um meteoro. Para a senhora o filme do cazuza prega fazer bacanais e etc, mas deve ser visto que estávamos em outro momento da história, pós-ditadura em que o mais prezado era a liberdade. E o modo de algumas pessoas reagirem contra isso, foi o sexo livre. Acredito que a senhora não pode assistir ao filme "Alexandre" sobre a história mundialmente famosa de Alexandre, o grande. Pois não perceberá que o filme outra época e cultura. E não se pode julgar uma cultura sem estar inserido nela.

Acredito que todo filme é válido, o que é necessário é a pessoa que assiste ter senso-crítico.

Cada pessoa interpreta o mesmo filme de formas diferentes, vai de acordo com as experiências de vida daquela pessoa, ou do ângulo que ela vê. O que eu assisti no filme foi uma pessoa que leva a vida tentando se preocupar pouco com o dia-a-dia. Porque no final das contas a vida corre muito e estamos sempre presos àquela idéia de arrecadar muito dinheiro, e ganância, avareza. Pra mim o filme disse "relaxa", tudo vai acontecer. Sem estar em um extremo como Cazuza estava, pois tinha uma base financeira para isso, mas levar a vida de um modo mais alegre. Essa é a mensagem para mim.

Pra finalizar, acabo com uma frase de Rogers "nós, psicólogos temos que ajudar o cliente a seguir os passos dele mesmo, ao invés de seguir os nossos"

Sem tranferência. Sem se realizar nos outros. Nos filhos e nos clientes.

Paulo Costa, aluno do 6º semestre de psicologia.

Paulo.psicologia@gmail.com
(respostas ao meu e-mail serão muito bem vindas)


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quem resolve se expor está correndo o risco de falar merda, caso eu esteja. me corrijam.

4 comentários:

Hammurabi disse...

Tá estudando hein Fidel? Gostei de ver!!!!!!!

Você foi seguro, conciso e bem articulado. Eu também vi esse filme, pelo menos umas duas vezes. Eu gosto pra caramba das músicas do Cazuza.

A Psicóloga foi realmente infeliz ao usar um filme, e só o corpo de um filme, como protesto à degradação da nossa sociedade. Mas eu, apesar de dar meu apoio incondicional as tuas palavras (e isso é algo que eu sempre vou fazer), não deixo de também ver que a psicóloga também tem lá sua razão.
Bom, mas isso é assunto pra uma outra discussão. Talvez numa mesa, servida de queijo e vinho, com outros quase-psicólogos. Concorda meu caríssimo Filho de Alá?

Raskólhnikov disse...

“Blues da piedade
Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêncio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem” Cazuza

Há algum ídolo paradigmático, que programaticamente temos de seguir? Os ídolos são máscaras de Sociedades miseráveis; elege-se tal é qual para vangloria-se de habilidades atrofiadas, olha-se o outro [ídolo] como o futuro-possível eu. Não será pela vontade de “encarnar” as características do ídolo [outro] que cultivaremos o ânimo pessoal. Demos adeus aos ídolos, e passemos o ver-nos!
***
Como não viver à margem de uma Sociedade em que compactuar com ela seria o mesmo que ser co-autor de “abortos”? Cazuza foi marginal neste sentido, não compactuou com a tentativa de “construção” de uma Cultura social falida, autoritária, ditatorial, impositiva, fechada, que diz: isso é “certo”, isto é “errado”; fez por onde por uma Comunidade libertária, que incita as pessoas a correrem atrás de si mesmas, dos próprios anseios, que fala pra nós: olhe, vocês são pessoas excessivas, estão para-lá-de-uma-imediatidade, podem, se assim quiserem, por esforço próprio e/ou comum assumirem vivencialmente um projeto de Vida, esta culturalmente manifesta; isto é, uma Sociedade que nós mesmos façamos dela melhor.
***
Uma “juventude transviada” não será modificada assistindo filmes. Para que haja mudança há-de haver condições para tal. As inovações são constantes, científica, histórica, filosófica, melhor, culturalmente no quotidiano presenciamo-las. Agora, se a juventude está transviada não foi por falta de alertas, Cazuza fora um brilhante marginal de uma Sociedade com “sementes mal plantadas”.

Esses comentários são para suprir o que não foi dito pelo aluno Paulo.
Quanto as tuas palavras, Paulo, há apenas alguns pormenores:
(i) Pelo que sei, Aristóteles nunca dormiu com seus discípulos, não era homossexual.
(ii) Aristóteles foi precursor de várias ciências humanas e exatas, todavia, Sócrates e Platão são os iniciadores da Psicologia; de raspão, com Sócrates temos a grande inovação na concepção de ser humano, qual seja, o conceito de ‘alma’(psyché); esta veio a possibilitar toda uma virada no tratar cada indivíduo.
(iii) Não existem “desejos pendentes”, “épocas certas”. Somos pessoas excessivas, quando parecemos derrotados, sem ânimo, sem forças, bem o sabes, surte uma animosidade incrível, que nos fazem virar de pontas a cabeça. Somos seres cheios de “potências”, e estas se efetivam em tempos vários e inesperados, de modo a que nos sentimos “realizados”, seja lá qual epocalidade.
(iv) A maconha, todos sabemos, como qualquer droga, causa dependência, seja física, seja psíquica. A vontade, muita das vezes, fala mais alto do que a reta razão.

Por fim, diz aí Cazuza:
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

José Carlos Sturza de disse...

Em defesa de Agenor

Li recentemente artigo de Karla Christine, psicóloga, em que essa confessa seu desconhecimento pela vida e obra de Cazuza, um desconhecido para ela. Relata que, com sua filha adolescente, foi ao cinema e tendo em vista conteúdo do filme, teve que “conversar muito para que ela [sua filha] não começasse a pensar que usar drogas, participar de bacanais, beber até cair e outras coisas fossem certas, já que foi isso que o filme mostrou”.
Sua crítica a Cazuza, a quem chama de marginal, filhinho de papai, etc, tem pontos positivos, o engajamento contra as drogas e o alerta para que pais cuidem melhor dos seus filhos. Porém, tem também alguns pontos negativos. Quando fala dos pais de Cazuza, os desqualifica como adultos responsáveis e indignos mesmo de serem pais.
Embora, como ela, não queira para meus filhos a vida de Cazuza, menos ainda a morte que ele teve, mesmo a AIDS nestes tempos tendo um significado e diagnóstico diferentes em relação aos anos 80, entendo que nosso problema não é o de cultivar ídolos errados, mas sim o de cultuar pessoas. Pessoas não existem ou existiram para ser cultuadas e sim lembradas, pelas suas próprias trajetórias. Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza, foi expoente da poesia de seu tempo, um porta-voz da angústia e da rebeldia de uma geração. Sua contribuição para a cultura brasileira, e postumamente (via a Sociedade Viva Cazuza), para a luta contra a AIDS, é inquestionável. Suas mensagens foram e são sim muito tocantes, e mais que isso: nos ajudam a pensar.
Cazuza, precisa ser compreendido no seu tempo e no seu contexto. E não faremos isso a partir dos ensinamentos da montadora de automóveis FIAT, como indicou a psicóloga, pois para mim, ter um carro não é sinônimo de ser brasileiro. Aliás, o ‘ter’ precisa urgentemente dar lugar ao ‘ser’, a relações sociais e pessoais menos hipócritas, superficiais e violentas.
Quanto ao filme, ‘O tempo não pára’, recomendo. É uma obra muito interessante. Permite-nos acessar um universo para muitos desconhecido e pensar como podemos criar melhor nossos filhos, que podem, como nós, apreciar obras de arte sem seguir os passos de seus autores. Que, como nós, nossos filhos podem se identificar com o lado criativo e positivo de outras pessoas e não apenas com o consumo de drogas, ou de carros, tênis de marca e todas as bugigangas eletrônicas que são os ídolos inumanos (e sem máculas) de nossa triste contemporaneidade.

Acadêmico de Ciências Sociais/UFRGS
Ex-Conselheiro Tutelar de Porto Alegre

Anônimo disse...

Cazuza nunca foi um herói! todo mundo sabe disso! mas todo mundo também sabe que ele foi um grande cantor e grande poeta brasileiro! cazuza não perdia tempo criticando coisas bestas, pois o ser humano precisa antes olhar se bem pra si mesmo! essa bosta desse país que feita por pessoas como essa psicologa, devia perder seu tempo analisando e tentando melhorar a vida de seus pacientes, tenho certeza de que ela não é paga pra ir ao cinema assistir filme e dar opiniões infilizes! se quer julgar alguém então passe o dia todo na frente da tv vendo casos que realmente chocam o mundo, como por exemplo o pai e a madrasta que assassinou uma criança de apenas 5 anos! deixe a vida do cazuza que já morreu a quase 20 anos! cuidado pra ele não ir puxar seu pé de noite!