domingo, 2 de setembro de 2007

Idiota

A vívida vivência duma vida é mesmo uma excedência. Temos de sermos excessivos para suportar a excessividade da “realidade”. Exceder-se, pois que o mundo que aflora ante você não é senão excessivo. Vejamos, quando menos esperamos somos pegos por situações dramáticas. Em uma roda de pessoas que se tem certa aproximação de amizade vê-se quão são os vários sentimentos convergentes: amizade, amor, paixão, tesão, repulsa, indiferença, medo, receio, vergonha; pois é, numa convivência julga-se conveniente disciplinar a emergente excessividade humana. Todavia, o certo é que ao disciplinar-se pagamos muito caro.
A disciplina (sophrosyne) é vista como símbolo da racionalidade. Contudo, o disciplinado não deixa de ser um atormentado, frustrado, reprimido, tolhido, mascarado, enrustido, alienado. Quando você pegar sua esposa ou esposo trepando com um(a) amante, qual atitude tomará? Ao saber que a mulher que tu amas tem medo de ti, o que fazer? E se você é louco(a) de tesão por tua(teu) irmã (irmão)? Se sente nojo de seu filho? Se seu pau não fica mais duro, sua barriga está enorme, a bunda caiu, a pele enrugou, e então? Um disciplinado tem boas respostas?
Decerto, o mundo não é um kosmos. O mundo do ‘homem humano’ é vitalmente chaos. A degenerescência humana escandaliza a razão, pois que ser humano é ser solícito de desejos e impulsos violativos dos limites disciplinadores. Notemos bem, não se estar reduzindo o humano; o que está sendo dito é que diante do excessivamente real não se pode furtar o excesso, a violação (hybris); a contradição funda a vida.
De resto, sou um idiota por não exceder a excessiva vivência duma vívida vida gratuita, contradita e contraditória, heterogênea e heterônima. Isso, visto que fui um disciplinado quando mais precisei exceder-me.

A maçã
Se esse amor ficar entre nós dois
Vai ser tão pobre amor, vai se gastar
Se eu te amo e tu me amas
E um amor a dois profana
O amor de todos os mortais
Porque quem gosta de maçã
Irá gostar de todas
Porque todas são iguais
Se eu te amo e tu me amas
E outro vem quando tu chamas
Como poderei te condenar
Infinita tua beleza
Como podes ficar presa
Que nem santa no altar
Quando eu te escolhi para morar junto de mim
Eu quis ser tua alma, ter seu corpo, tudo enfim
Mas compreendi que além de dois existem mais
O amor só dura em liberdade
O ciúme é só vaidade
Sofro mas eu vou te libertar
O que é que eu quero se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar
Raul Seixas e Paulo Coelho

Um comentário:

Paulera disse...

sempre muito bom os seus textos, os ultimos textos de todo mundo que está aqui através do Cardosão que fez essa ponte de conhecimento entre a gente (sou eternamente grato)

eu sempre acho q nao sou inteligente o suficiente pra pegar a subjetividade dos textos, por mais que tenha entendido no plano superficial

abraços