terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Nachamu, Nachamu


Um helicóptero Apache israelense dispara um míssil durante ataque ao norte da Faixa de Gaza.


Um palestino gesticula, enquanto a fumaça é vista subindo de um edifício em chamas após o impacto de um míssil israelense em um campo de refugiados em Rafah, ao Sul da Faixa de Gaza.

Um Cachorro Bravo escreve:

Outro dia, como de costume, eu estava discutindo com o Bertunes. O tema era a função das Forças Armadas de um país. Começamos essa discussão quando o Marcão soltou na conversa que os militares não se submetem a um treinamento e sim a um adestramento. Como cães.
O Bertunes não pareceu se sentir ofendido com a insinuação. Pelo contrário, esboçou um sorriso de orgulho ao relatar que tinha sido treinado a obedecer à ordem do comandante. Se matar fosse a ordem, então ele teria que executar. Sem questionamento. Sem reflexão. Sem culpa.
Não importa a idade. Não importa o sexo. Não importa a nacionalidade. Não importa o berço. Não importa a história.

-Thiago, quando é que ce acha que eles sobem no morro? Eles sobem quando a força auxiliar (polícia convencional) não dá conta. Aí eles chamam o exército. Aí a ordem é matar.

Não somos todos adestrados? Eu sei lá. Eu fico pensando. Se a gente perde a capacidade de refletir, de questionar, de sentir culpa não é por que estamos todos anestesiados?
Será que olhar as cenas (eufemizadas, diga-se de passagem) do Oriente Médio e ficar mais preocupado em saber como a Flora vai morrer na novela não é anestesia?
A gente sabe que a gente não precisa cruzar o Atlântico pra ver uma guerra.
E no Rio? E em São Paulo? E na Ceilândia? E aqui na Santa Maria? Outro dia, aqui perto de casa, um cara de vinte e poucos anos tomou 18 facadas¹.
Pra que serve a polícia? Pra que servem as Forças Armadas?
A polícia sempre teve aquele lema de "Servir e Proteger".
É?
As Forças Armadas, especialmente o Exército, carregam o bordão: "Braço Forte, Mão Amiga".
Mão amiga?
Pra quem? Amiga de quem? Do rifle?
Que fique bem claro. Eu não tô criticando a polícia brasileira e as forças armadas do Brasil. Eu tô criticando a força repressiva como um todo, aqui no Brasil, na Colômbia, na China, em Gaza e onde quer que estejam.
Que me chamem de molenga. De coração mole. Mas eu não consigo conceber essa hipocrisia.
Então eu posso matar sem dar dignidade só por que eu tenho uma farda e um fuzil? Eu posso aderir a uma guerra inútil, que ceifará vidas inocentes só por que o filho da puta do comandante mandou?
Acho que nem todo mundo pensa assim. Graças a Deus, a Alah, a Javé, a Krishna que nem todo mundo pensa assim.
Lembrei que um tempo atrás eu vi uma notícia de um soldado americano que se negou a ir pro Iraque. Ele era um sargento e, pela recusa em tomar parte de uma ação estúpida do governo americano, foi preso, obrigado a realizar trabalhos forçados e, finalmente, foi rebaixado de patente.



O nome desse militar é Pablo Paredes, da Marinha dos Estados Unidos. Ele foi enfático ao explicar por que não foi à guerra:

-“Nunca imaginei que entraríamos em guerra com um povo que nada nos fez”¹-².

Eu acredito que existem guerras justas. Guerras que devem ser lutadas. E acho justo que um soldado americano que realmente acredite na existência de armas de destruição em massa no Iraque entre num navio e exploda alguns fanáticos fundamentalistas pra salvar o mundo. Mas só se ele realmente acreditar nisso. Não se um presidente, um senador, um comandante ou um pastor disser a ele que é isso que ele deve fazer.


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*Nachamu é uma palavra hebraica que corresponde a consolai. É o título de um poema hebraico escrito pelo profeta Isaías. É uma prece, uma homenagem e um desejo às vítimas palestinas e israelenses.
*Fontes:
1
2
3
*Para as ver as imagens menos hipócritas do Conflito em Gaza, clique aqui

2 comentários:

Glaukitos disse...

Olá, tem selo pra vcs lá no meu blog.
Confira a lista depois.
Tenham um ótimo FDS>

http://glaukitos.blogspot.com

Davi disse...

Faz-nos refletir em nossas ‘funções’. Seremos apenas servidores/funcionários que têm de EXECUTAR o que nos prescrevem? “Eu o matei tão-somente porque cumpri com minha obrigação de serviço”; “realizo, bem ou mal, as tarefas que meu trabalho requer”. A banalização do mal é mais premente do que pensamos. Ser policial, militar, servidor/funcionário público/privado não nos legitima a EXECUTAR toda e qualquer função que nos é solicitada.
O texto ficou ótimo, Hammurabi.